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...Bocage
tem, se não no sangue, ao menos na cultura, a herança da serenidade clássica, misturada ao tumulto romântico que as condições da sua vida lhe agravam no temperamento...
Hernâni Cidade |
Terminada a sua aventura no Oriente, (,,,) Bocage chega a Lisboa em 1790: "após o desembarque, precipita-se no desregramento em que se transforma a sua vida" (1) Começa a acamaradar "com súcia, ou grossa, ou fina" (2): fidalgos, janotas, rufiões, boleeiros, forcados, picadores, alvisseiros, espadachins, poetas, fadistas, pingões, catraieiros, pescadores, aguadeiros, marujos, calafates, amoladores, contrabandistas e tocadores de viola. Corre Lisboa de lés a lés, agasalha-se nas tabernas da Ribeira ou nos botequins da Baixa, e sucedem-se as noitadas de tertúlias, fumo, trabuzanas, genebra, ponche quente e pichéis de vinho. «Enche Lisboa de sua fama e as locandas de suas tunantadas». (3) Sem vintém na bolsa, com "ceia casual, jantar incerto" (4), vagueia ao acaso, vai à igreja, não à missa, aperta os dedos da mulher eleita na pia da água benta, espreita janelas e postigos, não lhe dá para namorar de estafermo. "Devoto incensador de mil deidades/ (Digo, de moças mil) n'um só momento" (5), tem sonetos prontos para deslumbrar as mais inocentes e formosas. Muitas vezes, acusado de sedutor obstinado, trancam-lhe as janelas. No vaivém das alcoviteiras, em vão suspira ou acende de fantasias as suas rimas: |
"Não dês, encanto meu, não dês, Armia, Ternas lamentações ao surdo vento; Se amorosa impaciência é um tormento, Com ledas esperanças se alivia:
A rigorosa mãe, que te vigia, Em vão nos prende o lúcido momento Em que solto, adejando o pensamento, Sobe ao cume da glória, e da alegria:
As fadigas d'Amor não valem tanto Como a doce, a furtiva recompensa Que outorga, inda que tarde, aos ais, e ao pranto:
Amantes estorvar, que astúcia pensa? Tem asas o desejo, a noite um manto, Obstáculos não há, que Amor não vença." (6) |
E quando não se abrem as portas das traseiras, vai recitar cantatas para os becos ou colinas, terreiros ou salas de café. "Ao dispor-se para improvisar, recostava-se a qualquer móvel, em completo alheamento de quanto o rodeava. Começando a recitar, ao fim de pouco, todos o julgariam interiormente habitado pelo demónio da poesia, que de todo ele se apoderava, agitando-o como energúmeno, de pé sobre o banco, os olhos em brasa, o gesto em delírio e dos lábios, ininterrupto, o facílimo fluir da melodia maravilhosa, rolando imagens brilhantes, irradiando de calor comunicativo, num crescente empolgamento de quantos o ouviam." (7) Os amigos enchem-no de aplausos e têm de lhe valer pagando por ele nas lojas de comida e nas de bebida.
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«Bocage tem quarenta anos de idade e mais de vinte de genebra e de noitadas, como etapas que vão do Bairro Alto ao Rio, à Rua das Violas, e passam pela surra de Surrate e pelos pangaios de Cantão até virem arder outra vez na poncheira do Botequim das Parras. Sobre isto, uma dilatação da aorte ( num frenesim permanente...fumaças consecutivas...esta Lisboa ladeirenta a subir todos os dias). Enfim, declarado um aneurisma, tem de ficar de cama. É um farrapo.» (16) Os amigos vão vê-lo. Um deles, Henrique José da Silva, fez-lhe o retrato. Esse bosquejo compadecido leva ao sublima as amizades constantes e os quadros dramáticos da vida efémera. Está escanifrado, a tiritar. O olhar esvoaça por cima dos amigos, da irmã e dos amigos em vigia permanente. Sentado no leito, os cabelos compridos, a morte a rondar-lhe o quarto, o braço esquerdo desfalecido e o outro, num gesto ténue, acompanha ainda um dos belos improvisos que o Morgado de Assentis escuta e reproduz: «Já Bocage não sou!...» (17)
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Em 21 de Dezembro de 1805, morre. Nas ruas de Lisboa, apregoava-se e vendia-se a cruzado novo centenas de exemplares do Improviso de Bocage (...) "Ironia de um destino infeliz que se prolongou para além da morte, Bocage é hoje ainda para o rural analfabeto da mais remota aldeia, para o garoto precoce das ruas, para a regateira dos mercados de Lisboa, apenas um grande farsola, descarado e vadio, que dava respostas a tempo e tratava as coisas pelo nome." (18) Texto extraído da obra «Bocage No Seu Tempo», Luís Dantas, Edições Ceres, Lisboa, 2000 NOTAS (1) Cidade, Hernâni, Bocage - A Obra e o Homem, (2) Bocage, Obras Poéticas, Vol. I, Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1910 (3) Martins, Rocha, Bocage, Episódios da Sua Vida, Lisboa, 1936 (4) Bocage, obra citada (5) Idem, idem (6) Idem, idem (7) Cidade, Hernâni, Bocage, Livraria Lello & Irmão, Editores, Porto, 1936 (16) Nemésio, Vitorino, Vida de Bocage, Bocage, Sonetos, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1943 (17)Bocage, obra citada (18) Lemos, Esther de,Bocage,"Antologia Poética", Verbo, Lisboa, 1972 |